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O tema central do blog gira em torno de mulheres, seus medos, dúvidas e desafios, passando pelo mundo feminino com suas contradições e as dificuldades de ser mulher em um mundo dominado por homens, um mundo patriarcal e injusto, aqui é um espaço para pensarmos todas estas questões. Seja bem-vindo, comente, deixe suas sugestões.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Freirinha...

O avô queria que fosse freira.

Acabou no meretrício.

Para acalmar a consciência, antes da transa fazia uma oração vestida de freira, os clientes adoravam esta fantasia exótica.

Jeanne Geyer 



segunda-feira, 7 de junho de 2021

Liquida.



Liquida, escorres pelos meus dedos,

Penetras meus segredos,
Invades meus pensamentos
Vãos de ti...

Vem que te quero liquida,
A vagar pelo meu corpo sedento,
Navegar pelos meus mares adentro,
Invadir o recôndito ser que se fecha para ti –
Medo
Medo que te quero sólida,
E doce,
Ah, quero me afogar em teu líquidos escondidos
Na solidez momentânea do corpo nu

Nu de promessas vãs e mentiras superpostas
Liquida para saciar minha sede,
Sólida, para aplacar meus desejos
Encobertos de ti.
Nunca serei teu
Desejos não consumados, liquida, fluida, sombra submersa
Venha liquida que te acolho, esquento, e aspiro
O vapor de teu corpo exalado.
Te consumo, te como, te cuspo, te exauro de ti
Qual vampiro de almas perdidas...

Jeanne Geyer

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O vibrador.

Dolores carregava um casamento falido, as brigas eram constantes e eles divergiam em tudo, menos no sexo. 

Henrique era capaz de fazer a esposa delirar de prazer, os orgasmos sucessivos produziam nele um prazer indescritível com as contrações da bucetinha suculenta contra o seu pau exigente e ávido.

Mas ele também estava cansado e desgastado, muitas brigas, discussões infinitas e a antiga cumplicidade havia acabado.

Por um tempo tudo se resolvia na cama com um sexo gostoso, mas depois começaram a se sentir feito animais, copulando sem amor e sem carinho. 

A decisão do divórcio veio quase que simultânea, bastou marcarem a data e comparecerem no cartório.

Olharam-se tristemente, pois um final sempre é doloroso, sentiram a sensação de anos perdidos...

Por um instante, a cumplicidade pareceu retornar e dizem quase ao mesmo tempo:

- Afinal teremos bons momentos para recordar, não foi de todo ruim.

- E continuamos amigos, completa ele.

- Claro, ela continua, pensando que afinal nunca se sabe se vai rolar alguma carência repentina.

Após a despedida com o último e ardente beijo na saída do cartório, cada um toma seu rumo.

Ela ficaria na casa, e encarregada da criação dos filhos, ele com o carro, afinal ganhava mais e seria mais fácil recomeçar.

Combinaram as visitas e os passeios com as crianças, um menino e uma menina de seis e oito anos. 

Nos primeiros tempos Dolores curtiu muito a solteirice, voltou a sair com a amigas e a se divertir, mas apesar da insistência delas, não aceitou nenhuma paquera nova, não se sentia preparada.

O que ela não tinha pensado era nos seus desejos e no fogo com que se consumia sem sexo.

As amigas se uniram e a presentearam com um vibrador. Quando ela abre a caixa já em casa, fica excitada e logo tenta manusear aquela coisa estranha.

Inábil e cheia de pudores, não consegue se satisfazer. Desesperada, e com receio de ser descoberta pelos filhos, embrulha o vibrador carinhosamente escolhido pelas amigas num pedaço de jornal e sai na madrugada olhando para os lados com medo de um flagra dos vizinhos para jogar no lixo o objeto que afinal não servira para nada.

Assim ela continua em noites insones, o corpo quente implorando caricias, as mãos inábeis buscando explorar os lugares que Henrique sabia explorar com tanta desenvoltura e gosto. Mas nada acontecia, dormia exausta e insatisfeita.

Um dia, não suportando mais, chama o ex-marido para um vale a pena ver de novo, afinal ninguém é de ferro.

As crianças ficam felizes com as visitas do pai, mas eles esperam pacientemente que caiam no sono para correrem avidamente para a cama e ficarem horas aproveitando as delícias que seus corpos já tinham decorado, como um mapa várias vezes consultado.

Henrique tem que sair na madrugada, pois agora não é mais marido, os filhos não podem saber.

Os encontros são eventuais, ambos seguem no propósito de refazer suas vidas com outros pares.

A vida segue seu ritmo como deve ser, até que ambos com pouca diferença de tempo, começam novos relacionamentos.

Os novos companheiros respectivamente Sandra e Mauro, são o que ambos esperavam, atenciosos, amorosos e cúmplices.

Dolores está feliz, todavia, depois do entusiasmo inicial, o sexo com Mauro não parece tão animado quanto era com Henrique.

Mas ela vai levando, afinal não se pode ter tudo na vida.

Por sua vez, Henrique também não está totalmente satisfeito com o sexo com Sandra, ela não tem o gostinho especial de Dolores, contudo, pensa, não se pode ter tudo na vida.

Assim a vida continua, até que um dia, durante o horário da escola dos filhos e não suportando mais a falta do ex-marido no sexo, Dolores liga para Henrique e o convida a ir na sua casa. No escritório ele diz que vai visitar um cliente e dirige ansiosamente para a casa da sua ex-esposa.

O encontro é abrasador. Ninguém fala nada, os corpos já conhecem os caminhos e alegremente o ritual de prazer se repete. Transam por muito tempo, até que exaustos, e depois de um banho relaxante ele a beija de leve prometendo voltar.

Quando Henrique sai, ela se encosta na porta com um sorriso bobo e pensa: agora tenho a vida que eu queria, não falta nada. 

Afinal, dando de ombros, pensa no ditado antigo: amor de pica, quando bate, fica!


Jeanne Geyer

Pouso.



Cheguei das estrelas para pousar delicadamente em frente a ti,

Oferenda de mim, recortes de luzes

De cores difusas.

- venho de todas as eras para te amar –

Sou fera, esfera, sou bicho a dominar

Te quero em todas as minhas estações,

Nas tempestades, nos cheiros, na doce ilusão de ser consumida -  Inteira.

Ouso, pouso em ti sôfrega – Mente, amor.

 

Jeanne Geyer